Neste capítulo, sem desconfiar, o delegado João Fernandes executa o plano definido por Beatriz Mendes e Renato Truli. O governador licenciado Luiz Dantas nem desconfia que caiu em uma cilada e tenta pagar para o delator contar a verdade à polícia. 

Capítulo 20

João Fernandes chegou e encontrou o advogado Antônio Chaves na sala da recepcionista. Após os cumprimentos, ele o encaminhou para o gabinete. Sentaram-se e a secretária entrou com dois cafés.

– o que traz um renomado advogado a esta hora da manhã? – questionou o delegado, de forma afável e sorrindo.

– é uma denúncia muito grave, delegado, por isso acabei iniciando a minha agenda do dia por aqui – cochichou Antônio, atiçando a curiosidade do outro.

– grave! Alguma outra delação premiada?

– o governador Luiz Dantas está pressionando meu cliente para que ele mude o depoimento. Já o ameaçou de morte e até ofereceu dinheiro. Coitado do Luciano! Ele está desesperado, quer até sair do país, mas ele não pode nem sair de casa por causa da prisão domiciliar – dramatizou.

– Dantas teve a coragem de fazer isso? – indagou Fernandes, duvidando que o governador fosse tão burro a ponto de iniciar negociações com um delator que vinha sendo mantido embaixo de intensa vigilância da Polícia Federal.

– ele está desesperado, acusou o Luciano de mentir e o está ameaçando para que mude o depoimento. Para não comprometer mais o meu cliente, quero solicitar que a Polícia Federal volte a grampear o telefone do Luciano e o oriente como deve proceder – solicitou.

– hum! Bom, isso nós podemos fazer e o governador pode ser preso em flagrante se esta conversa for confirmada – admitiu João.

– claro, sei disso, delegado. Estou a disposição do senhor para colaborar com a Justiça, esta é a nossa intenção – frisou a última frase, para confirmar que estava fazendo tudo com o interesse de fazer Justiça e livrar seu cliente do risco de voltar para o presídio.

João garantiu ao advogado que tomaria todas as providências para monitorar o cliente. Uma equipe da PF iria até a casa do secretário adjunto para implantar escutas ambientais e câmeras escondidas para gravar o eventual encontro, se ocorresse. Os dois se despediram e o delegado acionou a equipe para tomar as providências, como fazer a solicitação ao juiz e fazer o monitoramento.

O delegado achou estranho o governador mesmo sendo investigado e diante da cobertura intensiva da mídia ainda se arriscar. No entanto, pensou, como a realidade está superando a ficção, já não duvidava de mais nada.

Ele se viu obrigado a deixar para depois a investigação envolvendo o grupo de Truli, já que o governador afastado voltou a ser prioridade. Lamentou-se por não repassar o caso para outro delegado.

Se não fosse o caso de Luciano Portela, poderia voltar a acompanhar de perto a reação do ex-tesoureiro de Truli no presídio. Ficou frustrado com a repercussão nos meios de comunicação. Apenas um jornal online, que ele nem sabia da existência, acompanhou a transferência e publicou matéria, com grande destaque, sobre a ameaça de delação premiada.

João leu a matéria e interpretou que a entrevista do empresário era um recado para a organização criminosa, de que o tirassem da prisão o mais rápido possível ou ele iria colaborar com a Justiça. Inicialmente, o delegado concluiu que a instabilidade emocional de Khaled o ajudaria a avançar rapidamente sobre os demais integrantes do grupo.

Contudo, apesar dos chiliques, o empresário tinha noção do risco da delação premiada. Ele poderia levar à prisão outros envolvidos no esquema, mas perderia parte da fortuna e ainda não teria mais como retomar seus negócios com a administração pública.

Ao analisar a situação, João decidiu apostar em outra frente de investigação. Então abriu inquérito só para o ex-tesoureiro de campanha. O objetivo era descobrir outros crimes para mantê-lo na prisão por mais tempo e pressioná-lo, com um longo tempo atrás das grades, a delatar os amigos do poder.

Antes de iniciar a reunião com a equipe, pediu para a secretária enviar flores para a noiva. Eles tinham decidido em qual igreja seria o casamento e a data. Nos últimos dias, ocupado com o caso do governador e do tesoureiro, ele deixou as desconfianças de lado.

No entanto, ainda não teve coragem de perguntar para Miriam onde ela tinha encontrado dinheiro para bancar a festa. Ou pelo menos, ele suspeitava de que havia dinheiro na história.

***

Beatriz e Renato voltaram a adotar cuidados para se encontrarem no apart hotel. Eles temiam ser descobertos pelo jornal, que passou a vasculhar a vida de Truli em busca de munição para detoná-lo na eleição. Eles chegaram separados, de táxi e com intervalo de 30 minutos.

Ao chegar ao apartamento, beijou a amante longamente, porque estava com muita saudade, mas também eufórico com o início da campanha eleitoral. Como intensificou as visitas e reuniões, os encontros seriam durante a manhã.

Fizeram amor, tomaram banho e decidiram começar a definir a estratégia de campanha durante o café da manhã.

– com o Khaled preso, já comecei a arrecadar fundos para a sua campanha. Mas precisamos providenciar a publicação de uma pesquisa para a situação ficar ainda mais fácil, dar publicidade ao amplo favoritismo e falta de adversários na disputa – comentou Bia, enquanto passava requeijão na torrada multigrãos.

– vou pedir para o jornal registrar a que vamos fazer nesta semana. Com certeza, depois da manifestação e do afastamento do governador, devo crescer mais um pouquinho – disse, eufórico, tomando um gole de suco de abacaxi com hortelã, o seu favorito.

– bom, pela experiência que tenho, acho que a gente não deve passar dos 70%. Um monte de gente compartilhou aquela foto sua empurrando a repórter, que infantilidade da sua parte, né, amor – alertou ela, censurando-lhe o gesto.

– um jornal vagabundo, a imprensa marrom, ninguém lê ou dá moral – desprezou o ex-governador.

– ninguém lê, mas todo mundo ficou sabendo. Do jeito que as coisas estão no Brasil hoje, onde político nenhum presta, para você perder seus 70% é daqui para ali, então, meu caríssimo, cuidado, muito cuidado – aconselhou.

– odeio quando você diz que estou errado – admitiu, constrangido pelo puxão de orelha.

– então, mas temos uma boa noticia. O advogado já procurou a polícia para armar o flagrante e prender o governador. Vai ser um escândalo nacional, com certeza, não vejo a hora – contou, mostrando-se ansiosa.

– mas será que o delegado vai cair na nossa conversa?

– vai não, já caiu. Pelo que o advogado me contou, já instalaram escuta ambiental na casa do Luciano e até voltaram a grampear os telefones dele. E, para completar o cenário, pelo que fiquei sabendo, o governador está desesperado para se livrar das denúncias, vai cair como um patinho na armadilha – gabou-se.

– fico pensando neste delegado, que se acha tão esperto, cumprindo o nosso script direitinho – debochou, com um sorriso maroto.

– para mim, esta é a melhor parte da história – admitiu Bia, rindo – um dia ainda vou falar para ele, que armei tudo, só para ver a cara de imbecil que deverá fazer.

– hoje, só temos dois problemas, o Khaled e o jornalzinho, né?

– sim, o tesoureiro é sério, ele não aceita ficar preso, não se conforma e voltou a nos ameaçar, que fará a delação e vai entregar todo mundo se não for solto logo.

– sempre confiei, admirei o Khaled, nunca imaginei, nestes 30 anos juntos, que fosse ser tão fraco assim. Bastou ser preso uma vez para se desequilibrar totalmente – concluiu, coçando a cabeça.

– também não precisa ficar nervoso assim. Vou descobrir um jeito de resolver isso. Se você não fosse tão cabeça dura na indicação do Sérgio Ferro, a gente já tinha resolvido. No entanto, o desembargador negou habeas corpus e não move uma palha para nos ajudar. Tão bandido quanto Khaled, mas quer manter uma postura de independência perante a sociedade, cretino – resmungou.

– infelizmente, arrependo-me de tê-lo indicado, mas já passou, fazer o que? Bola pra frente, que não curto ficar olhando no retrovisor – frisou, saindo da mesa e erguendo as mãos para o céu.

– se você tivesse indicado o Antônio Chaves, com certeza, estaríamos blindados, vivendo céu de brigadeiro – rememorou Beatriz.

***

Ao saber da possibilidade de prender o governador, principal inimigo de Renato Truli, o superintendente da Polícia Federal, Clóvis Silva, ficou eufórico e reforçou que João Fernandes deveria comandar pessoalmente o caso e poderia contar com todos os recursos da instituição.

– vamos entrar para a história do país, estamos vivendo dias de glória no combate à corrupção – festejou Silva, eufórico.

Ao deixar a sala de Fernandes, Silva enviou um recado para o celular de Truli: “Tuiuiú, governador deve ser preso ainda hoje, procure dar publicidade”. Entrou no gabinete cantando, que até a secretária estranhou a imensidão do bom humor do chefe.

Por outro lado, João começou a ficar com raiva do governador, como tinha ousadia de tentar comprometer a investigação. Os primeiros grampos já o flagraram ameaçando Luciano, caso não mudasse de lado.  O tom dos diálogos era de desespero e de ultimato. Luciano mostrava-se bastante apavorado nas ligações.

Com o aval do Ministério Público Federal, o Superior Tribunal de Justiça autorizou a prisão de Luiz Dantas ao efetuar o pagamento do suborno para a testemunha mudar os termos da delação premiada.

João pegou três equipes da Polícia Federal e foram para a casa de Luciano para armar o flagrante e prender o governador. Ao recebê-los na porta, Luciano estava visivelmente nervoso, angustiado e abatido com a situação.

Ao contrário do que o delegado imaginava, ele estava com medo de ser descoberto e voltar à prisão por causa da armação. O secretário adjunto suava mais ao ver os policiais no seu lado, dando-lhe apoio, do que pela espera para armar a cilada e prender o adversário de Truli.

Pouco antes do horário marcado para a entrega do dinheiro, os policiais retiraram as viaturas do bairro, enquanto três agentes e o delegado ficaram dentro da residência para efetuar a prisão do político.

Dantas chegou tranquilo, não esboçava nenhuma reação. Estava com uma maleta na mão, onde trazia os R$ 50 mil para serem entregues ao delator.

– boa tarde governador, tudo bem?, perguntou Luciano, ao recebê-lo na porta, entre, por favor!

– bom revê-lo e saber que o senhor está bem – afirmou Dantas, cumprimentando-o e observando se havia mais gente na casa.

– fique tranquilo doutor, minha esposa e os filhos foram passear na casa dos meus sogros, não devem voltar antes do anoitecer.

Dantas entrou, sentou-se na sala e permanecia tranquilo. Nem se deu ao trabalho de verificar se havia gravação, escuta ou alguém mais no imóvel.

– Luciano, você me ferrou, cara! Tu sabes que não fiz nada disso, não tenho esquema na secretaria.

– mas governador, o senhor recebeu os R$ 350 mil, nós sabemos disso – reafirmou Luciano, voltando a suar e ficando mais nervoso, permanecendo de pé.

– meu filho, na verdade, este foi o meu único deslize nestes três anos e meio. Não sei onde estava com a cabeça de aceitar a proposta do Truli. Ele que me ofereceu, prometeu facilitar tudo, mas, a verdade, fui inocente em cair na armadilha do meu inimigo político, idiotice, inocência, nem sei mais o que sou: burro ou retardado?

– e ainda usou o dinheiro para pagar a reforma do seu banheiro – frisou Luciano.

– é verdade. Infelizmente, fiz isso mais pela falta de experiência. Maldita hora que entrei no jogo desses caras, só me lasquei, literalmente – admitiu, chacoalhando a cabeça, inconformado.

– pois é, agora é tarde, né?

– lógico que não, meu filho, pelo amor de Deus, você deve mudar esse seu depoimento. Cara, eu nunca te mandei destruir provas, atear fogo à secretaria, quando te dei ordens para fazer isso?

– o senhor mandou sim e foi bem claro aquele dia na Governadoria. O senhor estava com medo que descobrissem as provas do desvio dos R$ 350 mil e orientou para colocar fogo nos documentos – reafirmou Luciano, sem encarar o governador nos olhos.

– olha para mim, meu rapaz, diga de onde tirou essa história que te mandei queimar a secretaria, ficou louco? – subiu um pouco o tom de voz, ficando de pé e gesticulando com as mãos.

– o senhor ordenou sim, governador, foi claro, não estou enganado e só cumpri ordens  – insistiu Luciano, mais nervoso e começando a tirar o governador da calma.

– bom, não vou discutir mais com você, tudo que quero, agora, é que você pegue este dinheiro e conte a verdade aos policiais, que não te mandei botar fogo na secretaria e não tenho esquema de desvio de dinheiro – enfatizou, de forma convincente e olhando o funcionário nos olhos.

– bom, como o senhor está me ameaçando, eu mudo o depoimento, porque prezo minha família, mas também pelos 50 mil paus – resmungou Luciano, sentando-se. Ele começou a tremer, as pernas ficaram bambas.

– é isso aí, pegue esse dinheiro e fale para a polícia a verdade, que esse desvio é esquema do Renato Truli. E diga que nunca te ordenei para destruir a secretaria, ok?

– ok! – disse Luciano, pegando a maleta com o dinheiro.

– muito obrigado e passar bem – afirmou o governador, levantando-se para deixar a sala.

Ao abrir a porta da sala, ele deu de cara com o delegado João Fernandes. Ao ver o delegado, levou as mãos à cabeça e viu as pernas bambearem.

– estou perdido – desesperou-se.

– governador Luiz Dantas, o senhor está preso por subornar testemunha, mudar os rumos de investigação federal e corrupção ativa – anunciou, algemando o político.

Os agentes foram até a sala, onde Luciano estava sendo no sofá, suando e apavorado, e pegaram a maleta com o dinheiro.

– a cada dia me surpreendo com o senhor, para pior, não consigo acreditar que conseguiu ser eleito governador com esta ingenuidade toda – desabafou João, sem esconder a frustração.

Quando os policiais deixavam a residência, viaturas da Policia Federal foram encostando. Uma equipe de televisão chegou a tempo de fazer o registro de Luiz Dantas algemado e entrando no camburão.

João Fernandes ficou irritado, porque não queria transformar a prisão em espetáculo, mas já era tarde demais. Antes de entrar no carro, ele deu entrevista confirmando as informações do repórter, de que o governador tinha sido preso em flagrante ao subornar o delator com o pagamento de R$ 50 mil.

No caminho de volta, ele foi checando pelo rádio, quem, entre os seus agentes, tinha vazado a operação para prender o governador para a emissora de televisão. Todos juraram que não avisaram ninguém.

Ao olhar o governador abatido no banco de trás da caminhonete, João viu tudo tão claro: a prisão de Dantas foi armada por Renato e ele executou o plano certinho.

Na sexta-feira, às 0h01, o Capítulo 21

os capítulos são publicados segunda, quarta e sexta-feira

Converse com o autor: Edivaldo Bitencourt – [email protected]

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