Neste capítulo, Beatriz Mendes decide visitar a filha  no hospital antes de deixar a cidade para continuar foragida. O delegado João Fernandes recebe denúncia anônima da chegada da dama de ferro e tenta prendê-la no hospital

Capítulo 44

Renato Truli passou em casa, tomou banho e decidiu dirigir-se ao comitê para definir o esquema de financiamento com o coordenador geral de campanha. Rogério estava de ressaca e com dor de cabeça, porque tinha dormido pouco à noite. Apesar disso, o jornalista estava realizado e feliz com a nova vida.

– passou a noite na gandaia, porque está com uma cara – observou o candidato, rindo da ressaca do assessor.

– com uma dor de cabeça dos infernos, mas valeu apena, o senhor precisa aproveitar as mulheres daquele lugar – exaltou.

– já tenho duas mulheres me vigiando 24 horas, mas se eu passar num lugar desses, é perigoso a Bia me aprontar umas – disse, rindo, e sentando na escrivaninha para abrir o notebook.

– as doações estão muito bem. Só o Henrique Neto vai doar R$ 30 milhões – informou Rogério, observando na agenda os valores anotados – a campanha já conta com mais de R$ 100 milhões. No entanto é um dinheiro que ainda precisa ser regularizado – observou.

– você faz o seguinte, pega R$ 10 milhões dos R$ 30 milhões e reparte entre os nossos aliados, prefeito, secretários, cabos eleitorais, empresários para depositarem na nossa conta. A partir deste ano, só pessoa física pode doar, então, você dá este dinheiro para cada um depositar a sua parte, mas tem que ser gente de confiança – orientou.

– vai ser complicado encontrar milhares de pessoas de confiança – queixou-se Rogério.

– como a lei mudou e empresa não pode mais fazer doação, agora, somos obrigados a fabricar doadores pessoas físicas – ressaltou – sem considerar que a Justiça eleitoral está ameaçando ser ainda mais rigorosa neste ano.

– pode ficar tranquilo, que consigo regularizar a situação até o final da campanha – prometeu – mas só vamos regularizar uns 20% do montante gasto, é muito dinheiro.

– saíram os novos números da pesquisa?

– ele ficou de me enviar no meu email, deixem-me dar uma olhadinha – respondeu, verificando no computador – chegaram sim, vou imprimir. – Em seguida, levantou-se e pegou os papeis na impressora.

– bom, caímos dentro da margem de erro, três pontos, mas a Alice subiu cinco pontos, chegando a 20% – informou Rogério.

– isso não é bom, ela continua subindo e nós caindo, vamos precisar melhorar a estratégia de marketing – analisou.

– mas o horário eleitoral acabou de começar, o levantamento ainda não pegou os efeitos da campanha na TV e no rádio.

– o importante é a linha, a minha está em declínio e a dela em ascensão, vamos priorizar os ataques, principalmente aqueles que saem no intervalo comercial, sem citar o nome da coligação – determinou.

– o Tribunal Regional Eleitoral pode nos multar se a gente não citar o nome da coligação.

– eu conheço o desembargador responsável pela propaganda eleitoral, ele vai atrasar o julgamento do recurso e, se a Alice tiver razão em algum recurso, só vai ter direito a usar no segundo turno, mas nós não vamos deixá-la passar para o segundo turno – enalteceu.

– se for assim, vou orientar o coordenador da propaganda eleitoral para mudar a linha dos anúncios de 30 segundos, para bater mais – emendou Rogério.

***

João Fernandes estava frustrado e furioso por ter falhado, mais uma vez, na missão para prender a ex-secretária de Obras. Ele fez todo o percurso entre o apart hotel e a delegacia pensando nos suspeitos do vazamento e colocou todo mundo na lista, da namorada ao chefe. Começou a levantar os motivos para suspeitar e para descartar. A lista incluiu até os outros delegados integrantes da força-tarefa.

Chegou, jogou-se na cadeira, colocou os pés sobre a mesa e as duas mãos na cabeça. Respirou, respirou. No entanto, não conseguiu ter um suspeito claro. Não tinha motivos para chegar para um dos suspeitos e falar é você sem magoar a pessoa.

Um agente entrou na sala e avisou que o ex-secretário estadual adjunto de Obras, Luciano Portela, decidiu mudar o depoimento sobre o incêndio. O delegado decidiu descer até a sala de oitivas para interrogar o preso.

Ao contrário do previsto, o ex-secretário estava mais gordo e tranquilo. Ele observou que o período em que ficou solto fez bem.

– seu Luciano Portela, o senhor deseja apresentar outra versão para o incêndio?

– sim, delegado, eu pretendo contar a verdade e inocentar o governador Luiz Dantas. Coitado até morreu por ter sido preso injustamente – respondeu.

– qual a nova versão para os fatos? – questionou João, puxando uma cadeira e ficando frente a frente com o acusado.

– o governador não sabia de nada, nunca me procurou para falar sobre propina. Eu coloquei fogo na secretaria a pedido da doutora Beatriz Mendes – disse, olhando o delegado nos olhos.

– e por que o senhor colocou fogo?

– ela me pagou R$ 200 mil e queria destruir os arquivos para dificultar a investigação da Policia Federal. Essa é a mais pura verdade – enfatizou.

– estou curioso para saber por que o senhor decidiu contar a, digamos entre aspas, verdade?

– eu estou com remorso. Um cara inocente morreu por causa da mentira. Tenho pesadelos com ele toda noite. O Dantas não me deixa em paz e estou com medo – admitiu, baixando a cabeça.

– como podemos ter certeza que o senhor não pode mudar a versão se a dona Beatriz lhe surgir nos sonhos?

– bom, delegado, ela está viva, enquanto o outro já morreu. Não consigo distinguir se estou sonhando ou vendo o espírito dele ao lado da minha cama. Em todas às vezes, ele me acusa de ser pilantra e mentiroso.

– vou registrar o seu depoimento, mas, infelizmente, não vai servir para fazer justiça, porque o cara já morreu. No entanto, o senhor e a dona Beatriz vão responder por isso. O ex-governador Truli não tem participação nesta ordem para queimar a secretaria?

– não, não, de jeito nenhum – ressaltou Luciano, para em seguida, começar a gaguejar. – Ele não fez nada, eu nem o conheço direito.

– como a Beatriz lhe pagou para praticar este crime?

– ela pagou em dinheiro vivo, que usei para comprar minha casa nova. Ela tinha me garantido que o delegado Jaime Dort ia me livrar da enrascada, mas aí teve a morte do agente patrimonial, surgiu o senhor e estou aqui preso – explicou.

– mas o senhor está preso por outros crimes, esta revelação deve resultar na abertura de novo inquérito contra o senhor. E esse delegado, quem é?

– eu não sou íntimo dele, mas faz parte do grupo comandado pela Beatriz. Delegado, só estou lhe falando sobre este delegado, não tenho provas e não quero que isso conste do meu depoimento oficial – pediu.

– tudo bem, mas é bom saber quem colabora com esta organização criminosa – disse, anotando o nome do delegado na agenda do celular.

Em seguida, ele pegou o depoimento formal de Luciano e determinou a abertura de novo inquérito contra Beatriz. De volta à sala, João encontrou-se com Clóvis Silva.

– fiquei sabendo que o desembargador Sérgio Ferro negou o habeas corpus para a Beatriz Mendes, – disse o superintendente.

– isso é muito bom, porque a prisão dela só depende de nosso trabalho agora – afirmou João – mas o nosso problema continua o vazamento. Cheguei  apart hotel cinco minutos depois que ela saiu, foi por um triz – lamentou-se.

– pediu para analisar os telefones celulares da sua equipe, para verificar se não houve traição de um dos nossos agentes – sugeriu.

– não acredito no envolvimento da equipe. Hoje, todos permitiram que eu olhasse os celulares, verificasse mensagens e autorizaram a quebra dos sigilos telefônicos. Eles não fariam isso se fossem os responsáveis pelo vazamento – explicou.

– suspeita de mais alguém?

– suspeito – disse – pensando melhor, é melhor nem falar nesta hipótese – ressaltou, levantando-se para pegar um café e disfarçar a suspeita sobre Miriam, a noiva.

Clóvis percebeu o incômodo do delegado com a desconfiança e decidiu pressioná-lo para descobrir.

– de quem você suspeita a ponto de se sentir numa situação tão desconfortável? – questionou pegando outra xícara para pegar o café.

– são coisas da minha cabeça, o senhor me desculpe, mas prefiro nem falar sem ter certeza – destacou.

– tudo bem, só queria ajudar – disse, levantando as mãos.

– o Luciano mudou o depoimento dele sobre o incêndio e confessou que foi pago pela Beatriz para queimar os documentos da secretaria.

– sério? Esta mulher é fera mesmo, está em todas – observou Clóvis.

– é o que parece, é mais poderosa do que eu imaginava e até já estou começando a achar que o Truli é peixe pequeno – riu João.

– talvez seja mesmo, se ela conseguiu desviar R$ 200 milhões sozinha – comentou Clóvis.

– mas o Truli faz parte desta quadrilha, uma hora vou descobrir e provar isso – prometeu João, causando constrangimento no chefe.

– não entendo essa sua obsessão pelo candidato a governador, qualquer coisa, você suspeita do cara. Por que tanto ódio? – questionou.

– não é ódio! São indícios, evidências, não tenho nada contra esse cara, aliás, nem o conheço – ressaltou João.

– bom, vou deixar você trabalhar e qualquer coisa, estou na minha sala – avisou Clóvis, deixando a sala.

João sentou-se de novo na cadeira e olhou para o porta retrato da namorada na mesa. Ficou pensando por que ela o trairia para trabalhar para uma organização criminosa. Voltou a concluir que a noiva não seria capaz de lhe fazer mal.

O telefone tocou. A secretária avisou que era ligação anônima para falar com ele sobre o paradeiro da ex-secretária.

– alô, delegado João Fernandes – disse ao atender ligação. – Pois sim, pode falar. A doutora Beatriz acabou de entrar no hospitalar para visitar a filha. E como o senhor sabe disso? Ah,foi visitar um amigo doente. Tudo bem, obrigado, que já estou mandando equipe aí para verificar – Ele pegou o telefone celular e saiu correndo para pegar a equipe.

***

Após deixar Renato Truli em casa, Beatriz continuou com o táxi e ficou rodando pela cidade para decidir onde se esconder. Uma das alternativas era a fazenda do ex-governador, que ficava a 80 quilômetros da cidade e estava em nome de laranjas. A propriedade ainda não entrou na investigação da polícia.

No entanto, com medo de deixar a capital sem falar com a filha, ela tomou coragem e ligou o telefone celular. Telefonou para Tuti, que lhe contou sobre a preocupação com a adolescente. Júlia estava sem comer há dois dias e só a base de soro.

Para tentar convencer a filha a comer, ela decidiu ir até ao hospital, usando a peruca, para não ser reconhecida. Chegou ao saguão, pediu para ir ao apartamento e subiu para o setor onde a filha estava internada.

Ao entrar no quarto, foi reconhecida pela empregada.

– dona Beatriz, que surpresa vê-la por aqui!

– vim conversar com a Júlia, convencer de como será importante ela ser forte diante de toda adversidade – contou, vendo a filha dormindo.

– ela continua gripada, com febre. O médico explicou que a imunidade dela continua baixa. Avalia que ela está depressiva com toda esta situação envolvendo a senhora – explicou a empregada, repetindo o gesto de angústia de passar as mãos no pescoço.

– eu imagino que não deve ser fácil – lamentou-se Beatriz, sentando-se ao lado da filha na cama e fazendo carinho para acordá-la.

– mãe! – exclamou a garota ao vê-la do lado. Ela abraçou Bia, chorou e repetiu que amava a mãe, não queria ficar sozinha e estava muito triste pela decretação da prisão preventiva da ex-secretária.

– minha filha, eu preciso de você forte para a gente vencer tudo isso – afirmou – você é a coisa mais importante neste mundo, mamãe te ama muito. Eu preciso de você forte, você precisa comer, reagir – exaltou.

– eu não quero ficar longe da senhora. Amo a Tuti, mas a minha mãe é a senhora – disse, abraçando-a novamente e recomeçando os soluços. Beatriz não conseguiu segurar as lágrimas, porque tinha noção de que não ficaria livre tão cedo para ficar ao lado da filha. Tuti também chorou.

– minha querida, promete para a mamãe que você vai comer?

– prometo mãe, pode ficar tranquila – jurou a garota, enxugando as lágrimas com a costa de uma das mãos.

– não vou poder ficar mais, preciso ir – disse, beijando a filha no rosto, abraçando-a novamente. Ao chegar na porta, voltou novamente para junto da cama e deu outro abraço na filha.

– mamãe te ama muito e precisa de você forte para enfrentar tudo isso – destacou, saindo e pegando o corredor do hospital. Sempre esperta e olhando para os lados para verificar se não estava sendo seguida ou com os policiais federais no seu encalço.

Enquanto Beatriz pensava se pegava ou elevador ou descia pelas escadas, três viaturas da Polícia Federal chegaram e cercaram as três saídas do hospital. João Fernandes saiu correndo feito louco pela entrada principal. Ele perguntou pelo quarto de Júlia, que ficava no sétimo andar, e saiu correndo, subindo pelas escadas.

Ele chegou ofegante no terceiro andar e parou para tomar fôlego.

– o senhor cansou, não é melhor a gente parar um pouco? – perguntou um dos dois agentes que o acompanhavam.

– não, vamos que essa mulher é esperta e vai tentar escapar de novo – disse, retomando o fôlego e a subida dos degraus.

Após chegar ao quinto andar, o delegado voltou a ficar sem fôlego e parou novamente. Ao levantar a cabeça para retomar a subida, ele viu a ex-secretária descendo as escadas. Ele a reconheceu imediatamente, apesar dela estar usando a peruca. Outras cinco pessoas desciam junto com ela. Ele pegou o revólver com as duas mãos, mostrou para as pessoas e gritou.

– Beatriz Mendes! Polícia Federal! A senhora está presa!

Bia não esperava encontrar o algoz nas escadarias do hospital e levou um susto. Ela parou, encarou João e tentou dissimular.

– o senhor está falando comigo? – perguntou, tentando enganar o delegado.

– a senhora mesmo, mãos na cabeça, que está presa – gritou, enquanto os outros dois agentes também ficaram a postos com armas em punho. Sem outra saída, a ex-secretária sentiu-se derrotada e ergueu as mãos.

– se não fosse a minha filha estar com câncer o senhor não me pegaria – disse ela.

– sinto muito pela sua filha, mas só estou cumprindo uma ordem judicial dona Beatriz Mendes.

Funcionários presentes no local fizeram fotografias com o telefone celular da mulher mais poderosa do estado sendo presa pela Polícia Federal.

Ao sair no saguão do hospital, João viu Aline Paiva chegando. Ao perceber a movimentação e descobrir a prisão de Beatriz, ela fez a foto com o telefone e parou para encarar o delegado.

– a dama de ferro estava escondida no hospital?

– não, ela veio visitar a filha que está doente. Nós recebemos uma denúncia anônima e tivemos êxito ao checá-la – revelou – E a senhorita, também recebeu uma denúncia anônima?

– não delegado, eu vim visitar uma prima que está internada aqui, tratando de um câncer, e tive a sorte de ter este furo de reportagem em primeira mão – disse ela, rindo.

– oh mulher sortuda – bufou o delegado.

– jornalista, além de bom texto e uma ótima apuração, precisa ter sorte – disse – Beatriz, o que a senhora tem a dizer sobre a denúncia de que desviou R$ 200 milhões? – perguntou, colocando o gravador do celular próximo do rosto da ex-secretária.

– é ridículo, não cometi nenhuma irregularidade, tudo foi aprovado pelo Tribunal de Contas e fiscalizado pelo Ministério Público – respondeu, encarando a jornalista.

– a polícia conseguiu provar superfaturamento, pagamento de propina, pagamento por obra não executada…

– minha querida, não existe nada disso, é perseguição política – interrompeu rispidamente a pergunta e fez sinal para o delegado de que desejava sair dali.

Aline ainda fez outra fotografia de Beatriz entrando na viatura. Ela decidiu voltar ao jornal para escrever a matéria e transferiu a visita da prima para o dia seguinte.

Durante todo o percurso entre o hospital e a superintendência, Beatriz ficou em silêncio e lamentou de não contar com o apoio de juízes amigos para se livrar da prisão. Também voltou a pensar na filha, internada no hospital e sozinha com a empregada.

João estava satisfeito, mas pensou que só estaria realizado após prender todos os integrantes da organização criminosa. Isso só será possível se a dama de ferro fizer delação premiada e entregar todo o esquema, mas a mulher é forte, resolvida e não se abala com nada.

Ao analisar o semblante da ex-secretária, sério, inabalável e corajosa, ele a admirava pela ousadia. Pensou se o preso fosse Truli, com certeza, entregaria todo mundo. No entanto, esse era o desafio principal, chegar ao chefe, que apesar do poder, era fraco, mas tinha uma proteção enorme para se manter no comando da organização criminosa.

Na sexta-feira, às 0h01, o Capítulo 45

os capítulos são publicados segunda, quarta e sexta-feira

Converse com o autor: Edivaldo Bitencourt – [email protected]

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