Neste capítulo, Rogério ameaça e consegue fazer o senador eleito Antonio Dantas mudar de lado na campanha eleitoral. Júlia não resiste e Beatriz Mendes é abandonada por todos no pior momento da sua vida. 

Capítulo 53

João Fernandes estava concluindo o relatório sobre a fiscalização no dia das eleições, quando a noiva foi anunciada pela secretária. Ele pediu para o investigador concluir o relatório em outra sala e o acompanhou até a porta para recepcionar a namorada. Os dois deram um selinho. Ela contou que decidiu ir até a superintendência para deixar o convite de casamento para o padrinho.

– o Clóvis não deve estar no prédio, porque tentei falar com ele há pouco, não consegui nem pelo celular – disse o delegado.

– eu o vi, há pouco, no shopping – comentou Miriam, que mordeu o lábio ao pensar se era oportuno revelar o que acabara de ver.

– conheço esta carinha, está querendo contar alguma coisa – suspeitou o noivo.

– então, eu vi o carro do Clóvis Silva no shopping e decidi ficar esperando para entregar o convite. Ele demorou e, do nada, surgiu o Rogério para conversar comigo…

– … sei, este cara de novo – interrompeu João, reprovando a conversa da noiva com o assessor de Truli.

– calma, eu não fiz nada demais. Ele me convidou para tomar suco, mas eu recusei e vim embora. Ao sair do estacionamento, eu vi o seu chefe saindo do carro do Rogério. Eles foram até o shopping para conversar, tenho certeza, porque ele estava escondido dentro do carro, dedurou.

-bom, agora não temos mais dúvidas de que o Clóvis está a serviço do ex-governador, só não sei o que os dois podem estar tramando – disse João, buscando hipóteses para o encontro.

– eu vim contar isso e também trazer o convite – afirmou Miriam – porque tenho um monte de locais para ir ainda. E você está bem?

– bem, concluindo o trabalho da eleição. Vamos ter muito trabalho, porque teve uma dúzia de candidato comprando votos – respondeu.

– melhor assim, fica com o convite e bom trabalho – disse Miriam, despedindo-se do noivo com abraço e beijo.

João ficou pensando no que a organização criminosa estava aprontando com o aval do chefe. Ele decidiu verificar novamente se Clóvis estava no gabinete e foi informado de que tinha acabado de retornar.

Sorrindo e amável, o superintendente o recebeu na porta. Ofereceu café e o convidou para se sentar no sofá.

– eu vim lhe entregar o convite de casamento – disse, entregando-o ao superintendente.

– muito obrigado, já falta pouco mais de um mês. O dia de você começar uma nova vida está chegando, vai engordar – brincou.

– nós já combinamos que um vai fiscalizar o outro para não ficar gordo, sem contar que gostamos de correr juntos – contou João.

– será um casal fitness – elogiou – isso é bom. No entanto, já vou avisando, chega um momento que o casamento se transforma numa monotonia, que é melhor atacar a geladeira na madrugada – comentou, rindo.

– mudando de assunto, o senhor ouviu uma história de que o Renato não é mais favorito e a governadora virou? – questionou João.

– parece que o outro lado conseguiu virar o jogo sim. Estou preocupado, será que o ex-governador não consegue promover outra virada?

– pelo que ouço as pessoas, será muito difícil. Na minha opinião, ele pode gastar o dinheiro que for, não consegue mais, já era – falou João, com convicção.

– você acha isso?

– tenho certeza absoluta. E olha chefe, pelo que ouvi dizer, quem decidir apoiar este cara pode se queimar e ir para o brejo junto, parece que a onda virou – frisou, fazendo sinal com as mãos de onda.

– nenhum jornal divulgou pesquisa até agora, como você tem tanta certeza? – questionou, passando a ficar com medo de ter o nome vinculado a um candidato derrotado.

– nem vão divulgar. Todos os jornais que realizam pesquisa estão com o Truli e só vão divulgar a pesquisa quando ele reverter o jogo. Pelo que fiquei sabendo, a diferença para a mulher já é de 20 pontos – ressaltou, sempre amplificando os dados contra o ex-governador.

– para mim será uma pena, porque eu acho o ex-governador competente, capaz de acabar com essa roubalheira instalada no país – opinou Clóvis.

João decidiu ignorar comentário para não voltar a brigar com o chefe, que não considerava as investigações feitas pela corporação. Para a Polícia Federal, Truli fazia parte do esquema de desvio praticado por Beatriz, mas não havia provas para indiciá-lo ou investigá-lo com o aval da Justiça.

Eles voltaram a falar sobre a fiscalização da eleição, da denúncia contra Beatriz e da reabertura do inquérito sobre o incêndio na secretaria. Após João deixar a sala, Clóvis decidiu tirar a dúvida sobre as pesquisas com Truli.

“Tuiuiú, é verdade que a governadora virou o jogo e lidera as pesquisas?”, indagou. “Infelizmente sim, mas o seu nome na minha campanha pode virar este jogo”, respondeu Renato. “Mas existe o risco de eu não conseguir virar?”, questionou. “Sim, existe, mas estamos refazendo o planejamento e acho muito difícil a gente perder”, respondeu Truli.

Com base nesta conversa, Clóvis voltou a ficar temeroso de que abandonando o cargo de chefe da Polícia Federal conseguisse voltar para a mesma função em caso de fracasso de Truli. E sem cargo, ele corria o risco de perder a influência na corporação e o valor para o ex-governador.

Ele decidiu pedir mais prazo para pensar. Na verdade, ia procurar saber com alguns amigos que faziam parte da campanha como estava o placar na pesquisa. Se Truli tivesse chance, ele aceitaria o desafio de assumir a campanha. Caso contrário, chegou a conclusão de que o dinheiro não compensaria.

***

Rogério decidiu ir até o escritório político do deputado estadual Antonio Dantas, que tinha sido eleito senador, para convencê-lo a abandonar Alice Gonzales e voltar a apoiar Truli. O político demorou a atender o coordenador de campanha.

– senador Antonio Dantas, parabéns pela vitória – reagiu Rogério ao vê-lo na recepção do escritório.

– meu caríssimo Rogério, como estão as coisas? – perguntou e cumprimentou o jornalista.

– estamos na luta e precisando do seu apoio – afirmou. O deputado sorriu e o convidou para entrar na sala.

– então, meu jornalista, não vai ser fácil o Renato Truli ganhar a eleição – avisou. Ofereceu uísque para o jornalista e os dois sentaram-se no sofá.

– não jogamos a toalha e vamos com tudo para virar o jogo, a eleição ainda vai ocorrer em 15 dias – observou Rogério, tomando um gole.

– eu vi as pesquisas, a Alice abriu12 pontos de vantagem, não vai ser fácil – ponderou.

– por isso que nós precisamos do seu apoio. O senhor foi bem votado e deve isto a nossa campanha, teve o apoio do Truli, teve dinheiro, teve gente para conquistar o eleitorado, nos deve esse favor, cobrou o coordenador da campanha.

– eu sou muito grato ao governador, mas tenho compromisso com o meu eleitorado. Os meus eleitores querem que eu apoie uma candidata sem mancha, sem acusação de corrupção, que seja limpa, não posso queimar popularidade na largada – justificou-se.

– mas o senhor não pode ser ingrato, senador, por favor – indignou-se Rogério.

– caríssimo, eu não estou sendo ingrato, isso é a política brasileira. Se o candidato não dançar conforme a música, perde espaço para outro, não faz política – explicou.

– Dantas, você é beneficiário direto deste esquema que condena agora, que o povo condena. Se forem colocar o modelo abaixo, não sobra ninguém – ressaltou.

– essa é a questão meu jovem, por enquanto, eu consegui me soltar do esquema, passei a se visto na rua como alguém fora do grupo do Truli, não quero me queimar. Não quero trair o nosso candidato, mas estou numa situação complicada, o povo vai me apedrejar se eu recuar do apoio dado à Alice – respondeu.

– senador, se eu encaminhar à polícia alguns documentos assinados pelo senhor durante a campanha, vamos ser obrigados a empossar o terceiro colocado, porque o primeiro será preso – ameaçou Rogério. O político sentiu-se constrangido e ameaçado, mudando de posição no sofá.

– vocês não podem fazer isso comigo? – queixou-se.

– não só podemos, mas, como vamos fazer. O senhor sabe que o Truli tem o apoio dos meios de comunicação. O novo senador não aguenta campanha de dez dias nos jornais, não estou brincando – ameaçou Rogério.

– eu sei, podemos chegar a um acordo, o que acha? – propôs, gaguejando.

– não tem acordo senador, só há uma saída, o senhor convoca a imprensa e anuncia o apoio ao Truli, invente os motivos que quiser, mas faça isso logo – determinou.

– vou ficar numa situação muito ruim com a governadora, eu já estive na casa dela e sacramentei o meu apoio – rebateu.

– é problema seu. Investimos muito dinheiro na sua campanha para o senhor nos abandonar assim. O nosso barco ainda não afundou. Melhor, não vai afundar, se o senhor se jogar ao mar, vamos por os tubarões para devorá-lo, o senhor escolhe – disse Rogério, assumindo o controle da situação e pedindo para o político lhe servir outro uísque.

– os meus eleitores não vão gostar, como vou me justificar?

– senador, o senhor que trate de convencer os seus eleitores a seguir o seu exemplo e votar no Truli para o governo – enfatizou Rogério.

– tudo bem, vou pedir para a minha assessoria divulgar uma nota – informou.

– nota não, eu vou esperar aqui o senhor conceder entrevista coletiva para anunciar a mudança de lado e justificar o apoio no Truli – destacou, tomando outro gole do uísque.

– tudo bem, sempre fomos aliados e vou dizer que o nosso candidato é o único capaz de por fim à corrupção neste país, não apenas neste estado – ressaltou Dantas, ficando mais tranquilo com o acordo.

***

Beatriz não conseguiu dormir à noite. Teve pesadelos com a filha. Como mãe, pressentia que a Júlia não estava passando bem no hospital e passou todo o dia triste, angustiada e aflita. Tentou, mas nem conseguiu pensar na campanha de Renato Truli durante o dia.

Não quis comer nada. Apesar de estar acostumada à alimentação na cadeia, ela rejeitou o café da manhã, o lanche, o almoço e o chá da tarde. Pressentia pelo pior. Sentia o coração doer. Pensava como Tuti estava enfrentando toda a situação.

Quando ela esperava pelo jantar, um agente lhe chamou para revelar que o advogado Antônio Chaves tinha um recado urgente. Ela ficou com as pernas bambas e precisou se apoiar na grade para ficar de pé. Ao vê-la, o advogado balançou a cabeça em sinal de negativo.

-é a Júlia, né doutor?

– é, infelizmente dona Beatriz, sua filha não resistiu a uma parada cardíaca e faleceu há menos de uma hora – lamentou o advogado, cabisbaixo.

Beatriz levou um choque, sentou-se na cama de cimento, colocou a cabeça entre as pernas, cobriu-a com as mãos e ficou em silêncio. Os agentes e o advogado não ousaram falar nada. Um policial correu e pegou um copo de água.

Ela levantou a cabeça, pegou o copo, agradeceu e tomou um gole.

– gostaria de ir ao velório da minha filha, o senhor consegue isso para mim? – apelou ao advogado.

– claro, dona Beatriz. Pelo que conheço o juiz Rubens Penteado, ele mesmo deve lhe dar esta autorização – disse.

Ela ficou de pé, segurou-s na grade da cela e olhou o advogado nos olhos.

– a Tuti, como ela está?

– abalada, muito abalada, mas o meu escritório vai tomar conta do funeral. Pedi ao motorista para levá-la para casa. Ela foi companheira, permaneceu no hospital durante todos os dias em que a garota ficou internada, até mesmo quando não tinha mais acesso ao CTI, permaneceu lá, sempre fazendo suas orações – contou.

– coitada, ela amava a minha filha tanto quanto eu, meu Deus! – conformou-se, esfregando os olhos.

O advogado acertou o funeral para o dia seguinte de manhã, quando voltaria para levá-la pessoalmente ao enterro da filha. Beatriz voltou para a cama, deitou-se de costas e chorou copiosamente.

Ela concluiu que chegou ao fundo do poço. Não viu sentido em tudo que construiu para não ter mais família para usufruir da riqueza, do poder, dos bens. Chegou a sonhar colocar a filha nas melhores universidades do mundo, mas agora amargava a solidão, a tristeza, a partida da garota sem lhe dizer adeus.

Passou toda a noite em claro. Levantava, deitava, chorava e não se conformava com a morte de Júlia. Em alguns momentos, o coração lhe doía tanto, que pensava estar tendo um ataque cardíaco.

Na manhã, tomou banho e esperou pelo advogado, que lhe trouxe um vestido preto e óculos para ir ao funeral. O juiz lhe liberou da prisão para acompanhar todo o velório e sepultamento da filha.

Acompanhada por três agentes e pelo advogado, ela chegou à capela do cemitério Parque das Primaveras. Dezenas de estudantes, amigos da escola e do curso de inglês de Júlia, lotavam a sala ao lado de Tuti, que estava sentada ao lado do caixão.

Ao vê-la, a empregada deixou de lado o tratamento sempre formal que mantinha e jogou-se nos braços da patroa. Com um choro contido, dolorido e sem lágrimas, Tuti lamentou pelo triste destino da adolescente.

– eu pedi tanto a Deus pela minha menina, dona Beatriz. Fiz promessas, ajoelhei-me por horas, clamei, mas Ele é grande, em sua imensa misericórdia, sabe o propósito da vida e da morte, sinto tanto!! – disse, sendo abraçada pela ex-secretária.

Sem chorar ou verter uma lágrima, ela chegou ao lado do caixão, abraçou a filha e pediu perdão por tê-la abandonado no momento mais difícil da sua vida. Acariciou-a por um longo tempo e concluiu que a vida não estava sendo justa com ela.

– filha, já estou presa, sendo castigada, te tirar de mim foi mais do que um castigo, foi uma sentença de morte – exclamou, com a primeira lágrima lhe escapando do controle.

Beatriz, Tuti, o advogado, os agentes e os estudantes acompanharam o sepultamento de Júlia. Nenhum político ou membro da alta sociedade, que viviam endeusando a dama de ferro, compareceram para lhe prestar solidariedade.

– nem o Renato compareceu para me dar um abraço doutor Antônio Chaves, o homem que dei toda a minha vida pela carreira política dele, ajudei-o a construir um império, nem ao menos uma ligação – lamentou-se, após o enterro.

– o governador até decidiu comparecer, mas o conselho político foi contra, porque os jornais poderiam ligá-lo à sua prisão e à denúncia do desvio de R$ 200 milhões – explicou o advogado.

– doutor, foi o velório da minha única filha, ela era tudo que eu tinha na vida, ninguém, com exceção do senhor, compareceu aqui para me dar um abraço, consolar – queixou-se, novamente.

– antes de passar na delegacia para pegá-la, eu fui conversar com o Truli. Ele até concordou comigo que um velório não seria explorado pela Alice, mas o Rogério bateu o pé, argumentou bastante. Ele disse que estamos conseguindo separar o escândalo da senhora do governador, uma visita neste momento, mesmo que seja na dor, poderia por todo o trabalho de marketing a perder.

– é assim mesmo dona Beatriz, esse povo só pensa neles. Acho que já passou da hora da senhora deixar de fazer sacrifício em nome da política. Para que tanto sacrifício, para isso, no pior momento da sua vida, a senhora não ter ninguém, ser abandonada por todo mundo – intrometeu-se Tuti, que ouvia tudo calada e passando as mãos no pescoço.

– pior que a Tuti tem razão. Tantas vezes eu sofri, passei por cima de minha vontade, fiz sacrifícios, para receber o que em troca, ingratidão. O Rogério sempre fazendo de tudo para me separar do Renato, não é justo o que eles estão fazendo comigo?

– dona Beatriz, como lhe disse no caminho, o governador sente muito pela morte da sua filha, está abalado com esta história, mas ele não podia colocar tudo a perder para comparecer aqui ao velório. Uma coisa o Rogério disse, é cruel, mas é verdade, ele não poderia ressuscitar a menina, infelizmente – argumentou o advogado.

– na vida, colhemos o que plantamos, pelo jeito, não plantei coisa boa – conformou-se Beatriz.

– dona Beatriz, o que faço agora? – perguntou Tuti, encarando a patroa.

– cuide da casa para mim até eu voltar – recomendou – se eu não conseguir voltar, a gente volta a conversar.

– eu tenho o dinheiro que a senhora me deixou, vou pagar as contas, resolver as coisas. Mas não quero ficar mais naquele apartamento enorme sozinha, se a senhora não se incomodar, quero voltar para casa – disse.

– meu Deus Tuti, você mora há tanto tempo comigo, você ainda tem casa?

– não tenho, é verdade – admitiu a empregada – mas vou alugar ou comprar uma, tenho algumas economias no banco.

– você não quer mais trabalhar comigo, também vai me abandonar? – indagou, deixando a funcionária constrangida.

– não dona Beatriz, eu não vou abandoná-la como seus amigos, só não quero mais dormir naquele apartamento, vai ser muito sofrido para mim.

– tudo bem, eu entendo. Antônio, deixe a Tuti em um hotel – sugeriu.

– não, por favor, dona Beatriz, eu volto para o apartamento hoje sem problemas. Vou me mudar aos poucos – revelou.

As duas se despediram e Beatriz voltou para a prisão.

Na segunda-feira, às 06h01, o Capítulo 54

os capítulos são publicados segunda, quarta e sexta-feira

Converse com o autor: Edivaldo Bitencourt – [email protected]

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