Neste capítulo, João e Miriam ficam envergonhados e não sabem como reagir ao ataque de Renato Truli. Beatriz Mendes conclui que sempre foi usada pela mulher do amante e toma uma decisão sobre a delação premiada.

Capítulo 65

João e Miriam assistiram ao debate no apartamento do delegado. Ambos tomavam cerveja. Enquanto assistiam ao confronto na TV entre Renato Truli e Alice Gonzales, eles comiam aperitivos. Tudo seguia tranquilo até o penúltimo bloco, quando o ex-governador citou nominalmente o delegado.

Sempre avesso aos holofotes, João foi ficando com o rosto vermelho. Ele nunca soube que a noiva fora namorada do jornalista Rogério Lopez. Ele sabia da amizade, mas nunca ficou sabendo de que houve algo mais íntimo.

– é verdade isso? – perguntou, colocando a cerveja na mesa de centro e levando as duas mãos na cabeça.

Miriam ficou envergonhada e sem reação. Ela não sabia o que fazer, ficou sem iniciativa, paralisada. Olhou para o namorado e apenas confirmou com sinal de positivo com a cabeça.

Neste momento, o telefone do delegado recebeu mensagem. “Delegado, o que o senhor tem a dizer sobre a acusação feita pelo candidato Renato Truli?”, perguntava um jornalista. Em seguida, o telefone começou a tocar. Outros jornalistas queriam saber a posição de João Fernandes sobre a acusação feita por Truli.

Por vários minutos, ele ficou sem reação. Permaneceu olhando a namorada nos olhos.

– o que vou falar agora? O cara me transformou no corno mais famoso deste estado – disse, pensando em fazer algo apenas para amenizar a história.

– João, olha, eu fui namorada do Rogério quando era adolescente. Estou morrendo de vergonha, porque, do jeito que ele falou, eu estou saindo com vocês dois ao mesmo tempo, o que não é verdade – explicou-se Miriam, com lágrimas nos olhos.

– sinceramente, nunca enfrentei uma situação semelhante na minha vida. O que vou falar agora? Como reagir a tudo isso?  Se eu falar sobre isso, vou entrar no jogo do Truli. Meu Deus, como você pode se envolver com esse crápula do Rogério?

– nós éramos vizinhos, estudamos na mesma escola e nos conhecemos há muitos anos, bem antes de te conhecer, não sabia que ele ia ser safado desse jeito. Estou sem chão, não sei onde colocar a cara, o que dizer para as pessoas? – disse, começando a chorar.

João ficou de pé e começou a andar pela sala do apartamento. Enquanto ia de um lado a outro da sala, o telefone continuava tocando e recebendo mais mensagens. Ao verificar as 20 mensagens, ele constatou que uma era da jornalista Aline Paiva, que ele decidiu olhar.

“Delegado, que situação constrangedora! Estou pasma com o baixo nível do Truli! Sinto muito!”, solidarizou-se ela. “Estou sem chão, nem sei como reagir contra essa calúnia!”, respondeu. “Diga que não mistura assunto pessoal com profissional e não fale mais nada”, sugeriu. “Pode ser, vou pensar”, concluiu.

Ele admitiu que a sugestão da repórter era a melhor solução para o problema. Ao mesmo tempo em que ficou com raiva de Miriam por ter lhe escondido esse detalhe do passado, teve compaixão do desespero e da vergonha da noiva.

– acho melhor ir embora – falou Miriam, pegando a bolsa e enxugando as lágrimas com o lenço de papel.

– não, querida, por favor, espere um pouco – pediu.

– estou chocada com tudo isso, nunca quis entrar na política para não ser exposta desse jeito. Estou morrendo de vergonha de você, das pessoas, de todo mundo. Meu Deus, que situação extremamente constrangedora – lamentou Miriam, encarando João.

– fica amor, vamos enfrentar isso tudo juntos – sugeriu ele, puxando-a para perto do seu peito e lhe dando um forte abraço.

– João, eu nunca imaginei isso. Nunca pensei que o Rogério fosse capaz de usar isto um dia, expor-me publicamente na reta final de uma campanha – cretino.

– eles não têm valor e estão desesperados, não vamos entrar no jogo, só precisamos encontrar a melhor forma de enfrentar esse cara.

Os dois ficaram abraçados por um longo tempo e depois voltaram a sentar. João deitou no colo da noiva e ficaram em silêncio, pensando nas alternativas.

– vou ligar para a assessoria da Polícia Federal e mandar publicar uma nota em que não comento vida pessoal e lamentar o nível da campanha eleitoral. Não vou perder a oportunidade de cutucar, vou mandar citar todas as denúncias contra ele, desgraçado – decidiu João, quando o telefone tocou. Era o superintendente interino, Valmir Cardoso.

– delegado, tudo bem? – perguntou o substituto de Clóvis.

– mais ou menos, depois de me transformar em peça de marketing da campanha eleitoral. Estou arrasado, nem sabia que minha noiva foi namorada na adolescência daquele cretino – respondeu.

– olha João, eu vou responder por você. Vou lamentar o episódio, condenar a baixaria na política para criar cortina de fumaça para acusações graves e ressaltar que o ex-governador é investigado por ser mandante da morte do governador Luiz Dantas, concorda?

– eu ia falar mais ou menos isso, mas ia responder como delegado, sem misturar a instituição.

– não, fique tranquilo, que ele comprou essa guerra com a Polícia Federal. Não destrua o amor de vocês por causa desse bandido. Tem a minha solidariedade – afirmou.

– obrigado chefe, fico muito feliz pelo apoio, acho que estava precisando mesmo – admitiu, mais aliviado.

– e se você quiser ficar em casa amanhã, para evitar exposição, eu assumo a organização do esquema para fiscalizar a votação no domingo – propôs.

– não, eu vou trabalhar sem problemas.

– a imprensa vai estar de plantão e deve usar isso para segurar os votos no Truli, não acha?

– não vou fugir disso, se é esse o preço, encaro com a maior naturalidade, só o seu apoio já me deu novo ânimo – respondeu mais animado.

– ok, até amanhã, abraços – disse Valmir, desligando o telefone.

João e Miriam decidiram ficar juntos para encarar a situação e não dar o gosto de vitória para Truli. O delegado decidiu abrir o notebook para ver a repercussão do debate nos jornais online.

Os jornais aliados de Truli adotaram a linha do ex-governador e deram destaque para a denúncia de retaliação de João contra o ex-namorado da noiva. O maior jornal do estado chegou a insinuar que a advogada ainda mantinha caso com o jornalista. Já Aline foi mais objetiva, destacando o baixo nível da campanha e que o candidato recorreu ao ataque para não se defender das denúncias de corrupção, obstrução da justiça e assassinato.

– para você ver, temos uns 10 jornais, nove me colocam como vilão. Só um que mostrou os dois lados. Pela repercussão, o cara deve ganhar a eleição domingo, que país é esse? – lamentou-se o delegado.

– você tem razão. Isso é só o começo da reação dele. Para manter-se no poder, ele vai apelar e devemos nos preparar para o pior, porque a guerra só está começando – disse Miriam, olhando o noivo nos olhos.

– eu te amo por isso, por ser valente, inteligente, linda – falou ele, beijando-lhe os lábios suavemente.

– também te amo – respondeu ela, mais calma.

***

Beatriz ficou sabendo da repercussão do debate ao conversar com os agentes da carceragem. Quase todos ficaram indignados com o ex-governador por ter envolvido o delegado João Fernandes na disputa. Só um policial federal concordou com Truli, de que estava sendo vítima de perseguição.

– a senhora acha que o delegado gostou de ter comandado a operação para prender o doutor Clóvis? O João é um cara gente boa, só faz o trabalho dele e sempre se preocupa em estar fazendo tudo dentro dos conformes, da lei. É o caráter em pessoa – contou um agente.

– você não pode estar sendo usado por esse delegado? Endeusando uma pessoa que não merece? – questionou Beatriz.

– não. Tem gente muito mais sacana. Por exemplo, o seu advogado, eu vi e o ouvi avisando os jornalistas no dia que a senhora foi transferida – comentou.

– como assim?

– ué, o dia que a senhora foi transferida para o presídio, quem avisou a imprensa, foi o seu advogado. Ele ligou para avisar logo depois de sair da sala do delegado e ressaltar que exigia sigilo na operação, para não expor a senhora. Aí, só foi sair da sala, pegou o telefone e avisou o horário e o local da transferência.

– você está me dizendo que o meu advogado avisou a imprensa do horário da minha transferência? – insistiu Beatriz, para ter certeza do que estava ouvindo.

– sim, não sei o nome dele, mas sei que é o seu advogado, de bigodinho? E no dia seguinte, ele voltou e pediu para o delegado investigar qual era o policial responsável pelo vazamento, porque a senhora tinha sido ridicularizada e exposta em todos os jornais, cara de pau, né?

– com certeza, faltou caráter ao Antônio Chaves – concordou Beatriz.

Neste momento, ela voltou a deitar na cama e pensou na conversa com Tuti. A empregada tinha razão quando acusava o grupo político de lhe abandonar atrás das grades. Pelo ritmo das investigações, se Truli fosse eleito, só ela seria punida e ficaria presa pelos crimes. Talvez Rogério ou Clóvis, mas toda a cúpula sairia impune.

Ela começou a refletir que estava errada ao considerar que a situação era passageira. A onda moralizante não era sazonal. Só havia um jeito de parar a operação, matando o delegado. No entanto, a tragédia sairia pela culatra, porque daria ânimo aos outros delegados para adotarem a mesma postura do companheiro e buscar justiça.

Independente dos próximos acontecimentos, Beatriz avaliava que a sua fase estava encerrada. Ela nunca mais voltaria a ser dama de ferro ou a poderosa em um esquema político. O desprezo dos amigos e da alta sociedade não era passageiro. Ela já tinha sido alijada do poder político.

Na avaliação da ex-secretária, ao por fim ao esquema de corrupção com a demissão do secretário de Obras, Alice teve conhecimento do esquema de corrupção e começou a mostrar controle da situação. Só a derrota da governadora poderia manter o grupo de Truli no poder.

Ela pensou na conversa com Rogério, em que ele citou o envolvimento do amante com a jornalista, mais nova e bonita. Isso ela não perdoaria. Ao longo de 30 anos, fez muito sacrifícios em nome do amor, da paixão, do homem da sua vida, mas nunca teve retribuição.

Além de traí-la com outra, Truli passou a dar poderes para a mulher na campanha. Agentes comentaram com Beatriz a desenvoltura de Carmélia nas agendas do marido. A futura primeira-dama mostrou-se sagaz na política. Ela passou a dar entrevistas e jornais a apontaram como principal responsável pela reação de Renato Truli nas pesquisas e de ter ampliado a vantagem em relação à Alice Gonzales.

Neste momento, Beatriz concluiu que, na verdade, sempre foi usada por Carmélia. Ela nunca foi poderosa como pensava. Desde quando ela abriu mão do namoro para Truli casar-se com a filha do rico fazendeiro, ela foi usada. A outra só a deixou reinar por três décadas, porque nunca foi ameaça ao casamento e sempre se dedicou de corpo e alma à carreira de Truli.

Beatriz chorou silenciosamente ao concluir que nunca esteve no controle da situação. O domínio  sempre foi de Carmélia, a mulher discreta, esperta e inteligente. A esposa do ex-governador só manteve a  ex-secretária onde ela sempre esteve porque sempre foi a segunda. Enquanto Bia abandonou sonhos pela carreira de Truli, Carmélia sempre fez tudo que quis.

Tudo ficou ainda mais claro quando ela lembrou que o advogado Antônio Chaves foi indicado pela esposa do ex-governador para integrar a assessoria jurídica. Ele era primo de Carmélia.

Tuti era apenas uma empregada doméstica, mas tinha razão. Beatriz foi usada a vida inteira, mas não por Truli. Ela sempre fez, sem saber, tudo que Carmélia quis que fosse feito, não a vontade do amante.

– você me paga, desgraçada! – exclamou, em voz alta, deitada na cela, sozinha e com lágrimas nos olhos. Nesta noite, ao ver a situação cristalina, Beatriz Mendes decidiu mostrar seu poder. Não deixaria pedra sobre pedra. Ela tinha as coordenadas para entregar toda a organização para a polícia e faria isso. Entregaria os tubarões. A política estadual nunca mais seria a mesma.

Beatriz Mendes aceitou fazer a delação premiada. Se Carmélia queria ter poder, que o construísse do zero, não ia surfar no topo, no qual chegou com a ajuda da dama de ferro.

Na próxima sexta-feira, após o CARNAVAL, às 0h01, o Capítulo 66

os capítulos são publicados segunda, quarta e sexta-feira

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